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Nestas três semanas, guardamos o luto anual pela destruição do Templo Sagrado em Jerusalém e o resultante exílio que perdura até hoje, embora o Estado de Israel já esteja estabelecido, porém sem a plenitude que está prometida nos profetas.

O período de luto começa ao por-do-sol de 17 de Tamuz quando as muralhas de Jerusalém foram derrubadas pelos exércitos romanos em 69 da e.c, e se estende chegando ao seu ponto mais alto em Tsha B'Av, dia 9 de Av, quando jejuamos. nesta data, ambos os Templos foram destruídos. no calendário judaico este é o dia de maior pesar pois em outras épocas, nesta mesma data outras tragédias se abateram sobre o povo judeu.

9 de Av - o que dizem nossos sábios e a história?

Por que esta data é tão significativa?

Por Vlamir Dias

Uma importante lição aprendi logo no início de minha caminhada no Judaísmo: nos costumes e tradições de nosso povo; não existem folclores ou datas meramente comemorativas. Tudo possui significado preciso e verdadeiro. Ocorre muitas vezes que pela complexidade dos fatores envolvidos, e pela falta de conhecimento da maiores de nósd, uma vez que estas datas e costumes foram estabelecidos por sábios do nosso povo; cabe-nos obsevar a data e ir estudando aos poucos, ano a ano, a cada data, sobre cada costume e tradiçaõ, para entender o que de fato está por trás de acontecimentos como a observância de T'sha B'Av.

Espero esclarecer um pouco sobre esta data neste artigo.

Fatos históricos:

Esta data está cercada de acontecimentos que nos trazem pesar entre elas a destruição do primeiro e do segundo Templos em Jerusalém.

 

A destruição do Primeiro Bet Hamicdash (Templo Sagrado)  ocorreu em Tish'á Beav (9 de Av), no ano 3338 (423 AEC).

O versículo declara (Melachim II 25:8): "No sétimo dia do quinto mês, no décimo nono ano do reinado de Nabucodonosor (Nevuchadnetsar), rei da Babilônia, Nevuzaraden, o assassino, servo do rei da Babilônia, chegou a Jerusalém e queimou a Casa de D'us." Em Yirmiyahu, entretanto, encontramos (52:12): "E no quinto mês, no décimo dia, no décimo nono ano do reinado de Nabucodonosor rei da Babilônia, Nevuzaraden, o assassino, chegou e postou-se perante o rei da Babilônia em Jerusalém."

Os Sábios ensinaram: Não se pode dizer que ele veio no sétimo, pois o outro versículo declara no décimo. E não se pode dizer no décimo, pois o outro versículo declara no sétimo. Como se pode reconciliar isso? No sétimo, os não-judeus entraram no Santuário e saquearam no sétimo, oitavo e nono. No cair da noite atearam fogo e as chamas duraram o dia inteiro (o décimo), como o versículo (Yirmiyahu 6:4) declara: "Que infortúnio o nosso, pois o dia está terminando e as sombras da noite se aproximam." Isso é consistente com a opinião de Rabi Yochanan, que disse: "Se eu tivesse vivido naquela geração, teria estabelecido o dia [de luto] no décimo, pois a maior parte do Santuário foi queimada neste dia."

Os Sábios ensinaram: O mérito transpira num dia de mérito, enquanto que a destruição do Templo Sagrado transpira num dia de tragédia. Quando o Primeiro Templo Sagrado foi destruído, o dia era Tish'á Beav, um sábado à noite, no sétimo ano do ciclo shemitá. Foi durante a vigília de [família de] Yehoyariv, e os Levitas ficaram de pé em seus dais e cantaram. Qual foi a canção entoada? [Em vez da canção normal do dia, cantaram:] "Ele virou contra eles sua própria violência e, com seu próprio mal, Ele os liquidará" (Salmos 94:23). E antes que conseguissem concluir "Senhor, nosso D'us os liquidará" [a frase final do versículo], os não-judeus vieram e os capturaram. E o mesmo ocorreu com o Segundo [Templo Sagrado] (Talmud, Tratado Ta'anit 29a).

Quando o Templo Sagrado foi feito, sua construção foi acompanhada pela canção [como declara o versículo (ibid. 30:1)]: "Uma canção de louvor sobre a consagração da Casa por David." E quando ela foi destruída, houve também uma canção de acompanhamento, como diz o versículo (ibid. 89:1): "Uma canção por Asaf, Senhor, as nações vieram em Tua herança" (Yalcut Shimoni 843, Salmos).

Nossos Sábios ensinaram: Quando o Primeiro Templo Sagrado foi destruído, grupos de cohanim (sacerdotes) jovens reuniram-se com as chaves do Santuário nas mãos. Subiram ao telhado e declararam: Mestre do Universo! Como não merecemos ser guardiães de confiança, que as chaves sejam entregues novamente a Ti. Quando eles jogaram as chaves na direção do céu, uma mão emergiu e recebeu-as, e os cohanim então atiraram-se ao fogo (Ta'anit 29b).

O SegundoTemplo

Quatrocentos e noventa anos após a destruição do Primeiro Templo Sagrado, foi destruído o Segundo Templo Sagrado - novamente em Tish'á Beav. Na época da destruição, entretanto, a grande cidade de Betar ainda existia, e permaneceu livre. Cinqüenta e dois anos depois - novamente em Tish'á Beav - Betar caiu ao inimigo, que assassinou a população da cidade, derramando tanto sangue que seus cavalos foram cobertos até as narinas.

Por cento e oitenta anos antes da destruição, o malvado império [romano] espalhou seu domínio sobre o país. Oitenta anos antes da destruição, os Sábios decretaram que países estrangeiros estavam em um estado de impureza ritual [por causa das conquistas romanas e sua introdução da idolatria]. Quarenta anos antes da destruição, o San'hedrin (Tribunal Supremo de 71 juízes) exilou-se [voluntariamente, i.e., deixou suas câmaras no Monte do Templo] e reuniu-se na praça do mercado. [Como assassinato tinha se tornado comum e o San'hedrin não desejava julgar crimes capitais, saíram da Câmara das Pedras Talhadas no Monte do Templo, pois somente reunindo-se lá o San'hedrin tinha o poder de julgar casos capitais.]

[Os materiais que se seguem são extraídos dos relatos encontrados no Talmud Guitin 55b-57b, Midrash Echá Rabá, e Josephus.]

Rabi Yochanan disse: Qual é [a lição aprendida do] versículo (Mishlê 28:14): "Feliz é a pessoa que teme constantemente e aquele que endurece seu coração para não cair presa do mal!" Por causa de [o incidente relativo] a Kamtsa e Bar Kamtsa, Jerusalém foi destruída. Por causa do [incidente relativo] ao galo e à galinha, Tur Malca foi destruído. Por causa do [incidente a respeito] do raio da roda de uma carruagem, Betar foi destruída.

Kamtsa e Bar Kamtsa

Por causa de Kamtsa e Bar Kamtsa, Jerusalém foi destruída. Havia um homem que tinha um amigo chamado Kamtsa e um inimigo chamado Bar Kamtsa. [Um dia] ele deu uma festa e disse ao servo: "Vá e convide Kamtsa." Ele foi e trouxe Bar Kamtsa [por engano]. Quando o anfitrião chegou, encontrou Bar Kamtsa sentado. Disse a ele: "Você é meu inimigo - o que está fazendo aqui? Levante-se e vá embora!"

Bar Kamtsa disse: "Como já vim, deixe-me ficar, e pagarei a você o custo daquilo que comer e beber." O anfitrião disse: "Não!"

Bar Kamtsa disse: "[Se permitir-me ficar], pagarei a você metade das despesas da festa." O dono da casa disse: "Não!"


Bar Kamtsa disse: "[Se permitir-me ficar] pagarei a você as despesas da festa inteira." Ele disse: "Não!"

O anfitrião agarrou Bar Kamtsa pela mão, fê-lo levantar e ir embora. Bar Kamtsa disse [para si mesmo]: "Como os sábios estavam sentados aqui, e eles não o repreenderam, isso indica que concordam. Eu [me vingarei] e os difamarei perante as autoridades."

Bar Kamtsa saiu e disse ao imperador: "Os judeus estão se rebelando contra suas ordens." O imperador replicou: "Quem diz isso [i.e., como sabe que isso é verdade]?" Ele respondeu: "[Posso provar minha controvérsia e lhe fornecerei os meios para testá-los.] Envie-os [um animal como] uma oferenda de sacrifício, e você verá se eles o sacrificam. [Se rejeitarem a oferenda, isso provará que estão se rebelando contra sua autoridade.]"

[O imperador aceitou a proposta de Bar Kamtsa e] ele foi e enviou com Bar Kamtsa um bezerro de três anos [para ser oferecido em sacrifício]. Antes de chagar [em Jerusalém], ele danificou o bezerro nos lábios. Alguns dizem que [o ferimento] era nas pálpebras, um local que para os judeus é considerado um defeito [e o animal portanto fica inadequado para uso como oferenda], e para eles [os romanos] isso não é considerado uma falha [e o animal permaneceria adequado para oferenda].

Os rabinos foram da opinião de que deveria ser oferecido [apesar do defeito], de forma a manter um relacionamento harmonioso com as autoridades. Rabi Zecharyá ben Avkilus disse-lhes: "[Se permitirmos que o animal seja oferecido,] as pessoas dirão que animais defeituosos podem ser sacrificados no altar."

Pensaram em matar Bar Kamtsa, para que não pudesse contar ao imperador que o sacrifício não tinha sido oferecido. Rabi Zecharyá ben Avkilus disse-lhes: "As pessoas dirão então que quem danifica uma oferenda está sujeito à pena de morte [pois eles estarão desinformados sobre a verdadeira razão porque está sendo morto]."

Rabi Yochanan disse: "A submissão de Rabi Zecharyá ben Avkilus [levou à] destruição de nossa Casa e queimou nosso Santuário, e exilou-nos de nossa Terra."

O teste da flecha

O imperador Nero foi contra eles. Ao aproximar-se de Jerusalém, atirou uma flecha na direção leste e ela caiu na direção de Jerusalém. [Ele atirou outra flecha] na direção oeste, e ela caiu na direção de Jerusalém. [Ele atirou flechas] em todas as direções, e elas caíram de frente para Jerusalém.

Ele disse a uma criança: "Cite-me seu versículo [i.e., diga-me um versículo que lhe seja familiar]." A criança replicou: "E exigirei minha vingança sobre Edom através de meu povo Israel" (Yechezkel 25:14).

Nero disse: "D'us deseja destruir Sua casa, mas deseja limpar Suas mãos comigo [i.e., embora D'us deseje destruir Jerusalém, o instrumento da destruição mesmo assim será castigado]." Ele fugiu e converteu-se ao judaísmo e Rabi Meir foi seu descendente.

O cerco a Jerusalém

O imperador Vespasiano atacou-os. [O sucessor de Nero apontou Vespasiano como o novo comandante das forças enviadas para reprimir a rebelião.] Ele veio e sitiou Jerusalém por três anos. Havia estes três homens ricos lá: Nacdimon ben Gurion, Ben Calba Savua e Ben Tsitsit Hakesset.

Um deles disse: "Fornecerei trigo e cevada para toda a cidade." E outro disse: "Fornecerei vinho, sal e azeite." E outro disse: "Fornecerei madeira [para cozinhar e para aquecimento]."

Os rabinos elogiaram especialmente a provisão de madeira. Rabi Chisda disse: "Um armazém de trigo exige sessenta armazéns de madeira [como combustível para assá-lo em forma de pão]." Abriram seus armazéns e ficou decidido que tinham provisões suficientes para vinte e um anos.

Havia entre eles um grupo de biryonim (bandidos rebeldes]. Os Sábios disseram a eles: "Deixe-nos sair e fazer as pazes com os romanos." Eles não permitiram que os Sábios o fizessem. Disseram aos rabinos: "Deixe-nos sair e batalhar contra eles."

Os Sábios responderam: "Nada ganharemos com isso." Os biryonim revoltaram-se e queimaram os armazéns de trigo e cevada, o que resultou em fome.

A negociação com os romanos

Rabi Yochanan ben Zakai saiu para uma caminhada na praça do mercado e viu os habitantes de Jerusalém fervendo palha e bebendo a água. Disse-lhes: "Podem pessoas que fervem palha para beber a água enfrentar as legiões de Vespasiano? Não tenho escolha a não ser deixar a cidade [e tentar negociar um fim para o cerco]."

Aba Sicra ben Batiach era o líder dos biryonim de Jerusalém e filho da irmã de Rabino Yochanan. Rabino Yochanan enviou-lhe uma mensagem: "Venha ver-me em segredo." Ele foi.

Rabi Yochanan disse-lhe: "Até quando você agirá desta maneira [por quanto tempo pretende impedir os rabinos de negociar com os romanos para terminarem com o sítio], e fazer com que todos morram de fome?" Aba Sicra respondeu: "O que posso fazer? Se eu lhes disser qualquer coisa, me matarão."

Rabi Yochanan disse-lhe: "Crie um plano que me permita sair. Talvez algo ainda possa ser salvo."

Aba Sicra disse: "Finja estar doente, e todos virão visitá-lo. Traga então um objeto mal-cheiroso e coloque-o perto de você. Eles dirão que você morreu. Deixe que seus discípulos o carreguem, mas não permita que outros o façam, para que não percebam que você é leve, pois as pessoas sabem que os vivos são mais leves que os mortos."

Rabi Yochanan assim fez. Rabi Eliezer segurou um lado e Rabi Yehoshua segurou o outro [do esquife no qual Rabi Yochanan estava]. Quando chegaram ao portão da saída da cidade, os guardas queriam apunhalá-lo [para ter certeza de que o corpo sendo transportado era realmente de um cadáver]. Aba Sicra [que estava acompanhando o féretro de seu tio] disse: "Eles [os romanos assistindo à procissão do funeral] dirão: 'Estão esfaqueando seu grande rabino.' [ou seja, verão suas ações como degradantes]." Os guardas queriam empurrá-lo [para certificar-se de que Rabi Yochanan estava de fato morto, pois se ainda estivesse vivo, a dor o faria gritar]. Aba Sicra disse: "Os romanos dirão: 'Eles estão empurrando seu grande rabino.'" Abriram os portões e Rabi Yochanan saiu da cidade.

Carregaram-no até que chegaram a Vespasiano no acampamento romano. Rabi Yochanan disse: "A paz esteja contigo, rei! A paz esteja contigo, rei!" Vespasiano replicou: "Você é passível de duas penas de morte: uma, eu não sou rei, e chamou-me de rei. E a outra - se eu sou um rei, por que não me procurou até agora?"

Rabi Yochanan respondeu: "A respeito do que estava dizendo, 'Não sou um rei,' a verdade é que você é um rei. Se não o fosse, Jerusalém não seria colocada em suas mãos, pois o versículo declara (Yeshayahu 10:34): 'E o Levanon cairá aos grandes.' O termo 'grande' aplica-se somente a um rei, como declara o versículo (Yirmiyahu 30:21): 'E sua [do rei] grandeza brotará dele.' E o termo 'Levanon' refere-se apenas ao Templo Sagrado, como a Torá (Devarim 3:25) declara: 'Esta boa montanha, o Levanon.'

"Com respeito àquilo que falou: 'Se eu sou um rei, por que não veio a mim até agora?' - os biryonim entre nós não nos permitem deixar a cidade."

Vespasiano respondeu: "Se houvesse uma barril de mel com uma serpente enrolada nele, não quebrariam o barril por causa da serpente [i.e., você deveria ter lutado com os biryonim para que ao menos uma parte do populacho - o mel no barril - fosse salvo]?!" Rabi Yochanan ficou em silêncio.

Rabi Yossef citou o seguinte versículo (Yeshayahu 44:25) [a respeito do silêncio de Rabi Yochanan], e alguns disseram que foi Rabi Akiva [que citara o versículo]: "Pois os sábios estão de costas e seus pensamentos foram tolos." Rabi Yochanan deveria ter falado a Vespasiano: "Eu usaria uma pinça e removeria a cobra, matando-a, e o barril permaneceria intacto."

Alguns dizem que havia quatro duques presentes: um árabe chamado Pangar, o duque da África, o duque de Alexandria, e o duque da Palestina. Começaram a apresentar enigmas para Rabi Yochanan, perguntando-lhe: "Se uma cobra é encontrada em um jarro, o que deve ser feito?"

Rabi Yochanan respondeu: "Chama-se um encantador de serpentes para atrair a cobra para fora do jarro, e este permanece intacto." Pangar disse: "A cobra é morta e o jarro é quebrado."

[Então eles lhe perguntaram:] "Se uma serpente é encontrada em uma torre, o que deve se fazer?" Rabi Yochanan replicou: "Chama-se um encantador de serpentes para atrair a cobra, e a torre permanece intacta." Pangar disse: "A cobra é morta e a torre é queimada."

Rabi Yochanan disse a Pangar: "Todos nossos vizinhos que agem perversamente fazem mal a eles mesmos. Não é suficiente que você não tente defender-nos? Deveria processar-nos?"

Pangar respondeu: "Procuro o bem-estar de vocês, pois enquanto a Casa [o Templo Sagrado] permanecer de pé, as nações lutarão com vocês. Quando esta Casa for destruída, eles cessarão suas brigas."

Rabi Yochanan replicou: "O coração sabe se suas palavras são falsas ou sinceras."

O mensageiro de Roma

Neste ínterim, [enquanto Rabi Yochanan e Vespasiano estavam conversando], um mensageiro chegou de Roma e disse a Vespasiano: "Levanta-te, pois César morreu, e os homens notáveis de Roma [i.e., O Senado Romano] resolveram designá-lo para o cargo."

Vespasiano calçava apenas um pé de sapato, e quando tentou colocar o outro, não conseguiu. Disse: "O que é isto [i.e., por que meu pé inchou subitamente e o sapato não serve mais]?" Rabi Yochanan disse-lhe: "Não se perturbe, pois acabou de receber boas novas [eis porque seu pé está inchado], como declara o versículo (Mishlê 15:30): "Boas novas incham os ossos." Como isso pode ser remediado [i.e., o que você pode fazer para que o sapato sirva]? Deixe que venha uma pessoa de quem você não gosta, e deixe-o passar à sua frente, como diz o versículo (ibid. 17:22): "E um mau espírito resseca os ossos." Ele assim fez, e o sapato entrou no pé.

Vespasiano disse-lhe: "Como você é tão sábio, por que me procurou só agora?" Rabi Yochanan replicou: "Não lhe falei [que os biryonim não permitiriam que ninguém deixasse a cidade]?" Vespasiano respondeu: "Também lhe falei que você deveria ter lutado com os biryonim."

Ele então disse a Rabi Yochanan: "Estou indo embora e uma outra pessoa será enviada [para governar as legiões]. peça-me algo que eu possa lhe dar [como recompensa por ter-me trazido a notícia de que eu estava destinado a tornar-me Imperador]."

Ele disse a Vespasiano: Dê-me [a cidade de] Yavne e seus homens sábios, os descendentes de Raban Gamaliel, e um remédio para curar Rabi Tsadoc."

Rabi Yossef citou o seguinte versículo (Yeshayahu 44:25) [a respeito dos pedidos de Rabi Yochanan], e alguns disseram que foi Rabi Akiva [que citara o versículo]: "Pois os sábios estão de costas e seus pensamentos foram tolos." Rabi Yochanan deveria ter-lhe dito: "Deixe passar desta vez [i.e., termine o cerco a Jerusalém como um gesto de sua boa vontade]." Mas Rabi Yochanan pensou: talvez ele [Vespasiano] não chegaria a tanto, e assim nem mesmo um pouco seria salvo.

Outros afirmam que Rabi Yochanan respondeu a Vespasiano da seguinte maneira: "pedi-lhe que poupasse este país." Vespasiano disse: "Roma designou-me para isso, que eu poupasse o país? Faça um outro pedido e atenderei."

Rabi Yochanan então pediu: "Poupe o portão ocidental que leva a Lod, para que qualquer pessoa que passe por ele num período de quatro horas será salva."

Quando a cidade foi conquistada, Vespasiano enviou uma mensagem a Rabi Yochanan. "Se houver alguém que você ame ou que seja seu parente na cidade, mande-o embora antes que minhas legiões cheguem."

Rabi Yochanan enviou Rabi Eliezer e Rabi Yehoshua para trazerem Rabi Tsadoc. Encontraram-no sentado ao pé do portão da cidade. Quando ele [Rabi Tsadoc] foi ao acampamento romano, Rabi Yochanan levantou-se.

Vespasiano disse: "Fica de pé perante um homem fragilizado?"

Rabi Yochanan replicou: "Acredite-me, se houvesse outro como ele, você não teria conseguido capturar a cidade nem mesmo com o dobro do número de soldados."

Vespasiano perguntou: "Qual é a força dele?"

Rabi Yochanan respondeu: "Ele come um único gamuz (uma medida pequena) e isso é suficiente para cem capítulos [i.e., fornece-lhe nutrição suficiente para aprender cem capítulos da Torá]."

Vespasiano então perguntou: "Por que ele é tão emaciado?"

Rabi Yochanan explicou: "Por causa de seus jejuns." Trouxeram médicos que o alimentaram lentamente, até que seu corpo estivesse recuperado.

A Muralha Ocidental

Quando Vespasiano conquistou a cidade, dividiu as quatro muralhas entre os quatro duques. O portão ocidental caiu nas mãos de Pangar, e foi decretado no Céu que jamais seria destruído, por que o local de repouso da Shechiná está a oeste.

Vespasiano mandou chamar Pangar e perguntou-lhe: "Por que não destruiu o que lhe foi dado?" Ele replicou: "Fiz isso para trazer glória ao Império, pois se eu o tivesse destruído ninguém jamais saberia o que você destruiu. Agora as pessoas vêem e comentam: 'Veja a grandeza de Vespasiano e o que ele destruiu!'"

Vespasiano disse-lhe:"Fez muito bem. Entretanto, como você violou minha ordem, suba até o telhado e salte. Se continuar vivo, permitirei que viva. E se morrer, morrerá." Pangar foi até o telhado, pulou, e morreu - e as palavras de Rabi Yochanan ben Zakai foram cumpridas.

A queda nas mãos de Tito

Vespasiano enviou Tito, o perverso, [para comandar as legiões]. Tito disse [citando o versículo Devarim 32:37]: "Onde está o D'us deles, a rocha na qual eles confiam" - e este é Tito o perverso, que profanou o Sagrado e blasfemou contra o Céu.

O que Tito fez? Tomou uma prostituta pela mão [i,e., premeditadamente], e entrou no Santo dos Santos [com ela], abriu um rolo de Torá e cometeu um pecado sobre ele. Então tomou de uma espada e rasgou a cortina [que separava o Santo do Santo dos Santos], e um milagre ocorreu: o sangue borbulhou e correu, e ele pensou que tinha matado Ele. [E os atos de Tito são aqueles aos quais se refere o versículo (Salmos 74:4)]: "Teus atormentadores bramiam no meio do Teu lugar de encontro, eles fizeram seus sinais [como se eles fossem] por sinais [de verdade]."

Aba Chanan disse: [A aparente falta de reação Divina à profanação do Santo dos Santos por parte de Tito é indicativo daquilo que diz o versículo (Salmos 89:9)]: "Quem se compara a Ti, que és forte. [O versículo deveria ser interpretado como significando] quem é como Tu, forte [em Seu comedimento] e duro [de se irar], pois escutas os insultos e blasfêmias daquele homem perverso e Tu estás silente. A escola de Rabi Yishmael ensinou: [A aparente falta de reação é indicativa daquilo que diz o versículo (Shemot 15:11)]: "Quem é como Tu entre os deuses, Hashem" - i.e., quem é como Tu dentre os silentes. [A exegese do Talmud está baseada na semelhança entre as palavras elim e ilem, que significam forte e mudo, respectivamente].

O que ele [Tito] fez [depois que profanou o santo dos Santos]? Pegou a cortina e transformou-a em um saco. Pegou todos os vasos do Templo Sagrado e colocou-os dentro, e os transportou em um navio, a fim de exibi-los em Roma e seu louvado pelo seu sucesso.

O borrachudo

Uma tempestade no mar ameaçou afogá-lo. Ele disse: "Poderia parecer para mim que a força do D'us deste [povo] apenas se manifesta através da água, [pois quando] o Faraó veio, Ele o afogou na água. Quando Sissera veio, Ele o afogou na água. Agora Ele se levanta sobre mim para afogar-me na água. Se ele é poderoso, deixe-O vir à terra seca e lutar contra mim!"

Uma voz Divina apareceu e disse-lhe: "Ó perverso, filho de um pervers, descendente de Esau o perverso, tenho uma criatura insignificante em Meu mundo, chamada borrachudo." E por que é chamado de criatura insignificante? Pois tem a habilidade de se embeber, mas não tem a capacidade de expelir. "Venha à praia e lute com ele!" Tito foi até a praia e um borrachudo veio e entrou em sua narina, e furou seu cérebro por sete anos.

Certo dia, Tito estava passando por uma oficina de ferreiro. O borrachudo escutou o barulho da marreta e ficou quieto. Tito disse: "Existe uma cura [para meu sofrimento]!" Todo dia, mandava chamar um ferreiro e ele martelava na presença de Tito. A um ferreiro não-judeu, ele pagava quatro moedas, mas para um judeu dizia: "Já é suficiente que você veja seu inimigo sofrendo!"

Fez isso por trinta dias [i.e., trazer o ferreiro para martelar em sua presença]. Em seguida, o borrachudo acostumou-se [ao barulho da marreta e continuou furando o cérebro de Tito, mesmo quando os martelos golpeavam].

"Aprendemos que" - disse Rabi Pinchas ben Arova: "Eu estava com os homens importantes de Roma [naquela época] e quando Tito morreu, examinaram seu cérebro e o que encontraram lá dentro era como um pássaro, pesando dois sela'im." Na Braita consta que era como uma pomba de dois anos, pesando dois litrin. Abaye disse: "Temos uma tradição, que seu bico era de cobre e suas garras eram de ferro."

Quando Tito estava para morrer, instruiu seus servos: "Queimem meu corpo e espalhem minhas cinzas sobre os sete mares, para que o D'us dos judeus não possa encontrar-me e levar-me a julgamento."

Onkelos, o filho de Kalonikus, era filho da irmã de Tito. Queria converter-se ao judaísmo. Após a morte de Tito, Onkelos fez contato com seu espírito e perguntou-lhe: "Quem é considerado importante neste mundo?" Tito respondeu: "Israel."

Onkelos perguntou: "Vale a pena juntar-me a eles?" Tito respondeu: "Seus mandamentos são muitos, e você será incapaz de cumpri-los. Vá e atormente-os neste mundo, e você será grande, como diz o versículo (Echá 1:5): 'Seus adversários tornaram-se chefes, seus inimigos prosperaram' - todos que atormentarem Israel são grandes."

Onkelos então perguntou-lhe: "Como você está sendo castigado?" Tito respondeu: "Conforme aquilo que provoquei para mim mesmo. Todos os dias eles juntam minhas cinzas, julgam-me, queimam-me, e espalham as cinzas sobre os sete mares."

Uma lição a se extrair

Aprendemos: Disse Rabi Elazar: "Venham e vejam como é grande o castigo por causar constrangimento - pois D'us ajudava Bar Kamtsa [i.e., Ele permitiu que a trama de Bar Kamtsa fosse bem sucedida, por causa do constrangimento que lhe foi causado] e Ele destruiu Sua casa e queimou Seu Tabernáculo."

Por que o Primeiro Templo Sagrado foi destruído? Por causa dos três pecados que prevaleceram: idolatria, relacionamentos proibidos e assassinato. Durante o Segundo Templo Sagrado, o povo estudava Torá, cumpria as mitsvot e se empenhava em atos de bondade - por que então foi destruído? Porque o ódio infundado prevaleceu. Isso nos ensina que o ódio infundado é equivalente aos três pecados cardeais de idolatria, relacionamentos proibidos e assassinato.

A queda de Betar
 

Nota: Quando os judeus rebelaram-se contra o governo romano, acreditavam que seu líder, Shimon bar Kochba (Koziva), cumpriria suas ânsias messiânicas. Mas suas esperanças foram cruelmente destruídas em Tish'á Beav de 135 EC, quando os rebeldes judeus foram brutalmente esquartejados na batalha final em Betar. Aqui está a história completa:

Betar estava destruída. Pois eles [os habitantes de Betar] tinham um costume: quando nascia um menino, plantavam um cedro, e quando nascia uma menina uma acácia, as árvores eram cortadas e a madeira utilizada para fazer a canópia nupcial.

Um dia a filha de César estava passando e o raio da roda de sua carruagem quebrou. Seus servos cortaram um cedro e colocaram-no para arrumar a carruagem. Os habitantes de Betar os atacaram, e os servos foram falar com César. "Os judeus estão se rebelando contra o imperador." Os romanos os atacaram [e destruíram a cidade].

Os soldados de Bar Kochba

Rabi Yochanan ensinou: Havia oitenta mil soldados romanos que sitiaram Betar. [A cidade foi defendida por] Bar Koziva, que tinha duzentos mil soldados com um dedo cortado [para o teste de admissão no exército de Bar Koziva era exigido cortar fora o próprio dedo como prova de bravura].

Os Sábios perguntaram-lhe: "Por quanto tempo você continuará a fazer aleijados em Israel?" Ele replicou: "De que outra forma eu poderia testá-los?" Eles responderam: "Qualquer um que seja incapaz de arrancar um cedro do Líbano pela raiz enquanto cavalga seu cavalo não deveria fazer parte de suas tropas."

Ele [Bar Koziva] tinha duzentos mil como este [capazes de arrancar um cedro] e duzentos mil como aquele outro [que tinham cortado seus próprios dedos]. Adriano enviou exércitos contra eles, mas eles saíram de Betar e aniquilaram as tropas de Adriano.

Certa vez, quando as forças de Bar Koziva estavam saindo para a batalha, um homem idoso aproximou-se e disse: "Que seu D'us lhes dê ajuda." Eles falaram erradamente, e replicaram: "Que Ele não nos ajude nem nos atrapalhe! (Salmos 60:12): Mas Tu nos rejeitaste, ó Eterno, e não marchas com nosso exército!"

Qual foi um exemplo da grande força de Bar Koziva? Ele conseguia bloquear as pedras da catapulta com o joelho e arremessá-las de volta, matando muitos soldados.

Quando Rabi Akiva o viu, declarou: "Uma estrela surgiu de Yaacov (Bamidbar 24:17) - Bar Koziva descende de Yaacov, ele é o Mashiach!" Rabi Yochanan ben Tursa disse-lhe: "Akiva! A grama crescerá em suas faces e o filho de David ainda não terá chegado [i.e., Bar Koziva não é o Mashiach]!"

O justo Elazar

Por três anos e meio Adriano César sitiou Betar. Rabi Elazar Hamodaí estava lá, e vestiu estopa e jejuou, rezando: "Mestre do Universo! Não Te sentes em julgamento hoje."

Adriano decidiu retornar [i.e., terminar seu mal-sucedido cerco a Betar], quando um Cutita [arquiinimigo dos judeus] veio e disse: "Mestre! Enquanto este galo [Rabi Elazar Hamodaí que rezava repetidamente] sentar-se aqui em cinzas, o senhor será incapaz de conquistá-la. Espere por mim e farei com que a capture hoje."

Ele [o Cutita] foi até Betar pelo portão principal, e encontrou Rabi Elazar, que estava ocupado rezando. Fingiu que estava sussurrando em seu ouvido. As pessoas contaram isso a Bar Koziva, dizendo-lhe: "Seu tio, Rabi Elazar, procura entregar o país nas mãos de Adriano."

Bar Koziva enviou uma mensagem para trazer o Cutita à sua frente. "O que disse a Rabi Elazar e o que ele respondeu?"

O Cutita replicou: "Se eu lhe disser, o rei [Adriano] me matará, e se não disser, então você me matará. Prefiro ser morto que revelar os segredos do rei."

Bar Koziva presumiu que Rabi Elazar procurava entregar o país [nas mãos de Adriano]. Enviou mensageiros para que levassem Rabi Elazar até ele, e perguntou-lhe: "O que lhe disse o Cutita?"

Rabi Elazar respondeu: "Não sei o que ele cochichou, pois eu estava no meio de minhas preces e nada escutei."

"E o que respondeu a ele?"

"Não falei nada."

Bar Koziva ficou furioso e chutou-o, causando-lhe a morte. Ouviu-se então uma voz vinda do Céu, dizendo: "Infortúnio para o pastor do ídolo, que abandonou o rebanho, uma espada em seu antebraço e em seu olho direito (Zecharyá 11:17). Você quebrou o antebraço de Israel e cegou seu olho direito. Portanto, o antebraço daquele homem [Bar Koziva], definhará e seu olho direito será golpeado." Assim, os próprios pecados dos judeus fizeram que Betar fosse capturada e Bar Koziva fosse condenado à morte.

A batalha final

Sua cabeça foi levada a Adriano, que perguntou: "Quem o matou?" Um Cutita adiantou-se e disse: "Fui eu." Adriano disse-lhe: "Vá e traga o corpo dele." Ele foi e o trouxe, e encontraram uma serpente enrolada em seu pescoço. Adriano declarou: "Se D'us não o tivesse matado, quem teria sido capaz de fazê-lo?"

Oitenta mil romanos invadiram Betar, e assassinaram os homens, mulheres e crianças, até correr sangue das soleiras e valetas. Os cavalos estavam mergulhados até as narinas, e os rios de sangue deslocaram rochas com peso de quarenta seá e correram até o mar, onde sua mancha podia ser vista por uma distância de quatro mil.

Adrian tinha um enorme vinhedo, dezoito mil [aproximadamente 18 km] por dezoito mil - a distância entre Tiberíades e Tsipori, e ele o cercou com um muro feito com os corpos daqueles mortos em Betar. Ordenou também que não fossem sepultados. Os Sábios ensinaram: que por sete anos os não-judeus cultivaram suas vinhas sem precisar de fertilizantes, por causa do sangue de Israel.

Tsha B'Av

Leis e Costumes

A Expulsão da Espanha

É uma tradição antiga que após a destruição do Primeiro Templo Sagrado alguns dos exilados migraram para a Espanha e ali estabeleceram uma comunidade judaica.

Após a destruição do Segundo Templo e a dispersão de muitos judeus pelos países da Europa, a comunidade espanhola foi muito aumentada pelos novos exilados. Muitas coletividades foram fundadas, floresceram e se tornaram grandes em Torá, em sabedoria, em riqueza e prestígio, a ponto da Espanha se tornar o principal centro de judaísmo na Diáspora.

Durou por um período de cerca de 1.400 anos e chegou a seu fim em 5252 (1492), quando a família real espanhola deu à comunidade judaica a escolha entre a conversão, a morte ou o exílio.

O começo da calamidade

Embora a comunidade espanhola fosse a mais afortunada das comunidades judaicas no exílio durante um extenso período e os dias da sua boa fortuna chegassem a ser denominados "A Idade de Ouro" do judaísmo espanhol, não obstante, a maior parte da história judaica espanhola foi marcada por perseguições e sofrimento. Assim é o destino de Israel no exílio: seus dias de sofrimento são menos recordados por eles. Seus dias de bem-estar, mesmo que sejam poucos, deixam forte impressão.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Durante o primeiro período de sua estadia na Espanha, os judeus viveram em paz e com prosperidade. Depois que os governantes da Espanha abraçaram a fé cristã, a ira do clero se voltou contra os judeus. No início, os judeus permaneceram fiéis a sua própria fé, e a recusa em abraçar a fé dominante era vista como afronta intolerável. O espírito de ódio que se levantou contra eles não conhecia limites.

Conversão forçada e aniquilamento

Em 5151(1391), 101 anos antes da Expulsão, uma onda de conversões forçadas e pogroms varreu centenas de comunidades na Espanha. As medonhas calamidades quebraram seu espírito, pois nunca estiveram acostumados à vida de aflição e supressão, como estavam seus irmãos da França e da Alemanha. O número de conversos cresceu e entre eles havia também uma quantidade de homens de grande preeminência, líderes comunitários, a quem faltaram forças suficientes para santificar o nome de D'us. Sentiam-se incapazes de desistir da riqueza e prestígio a que estavam acostumados.

Um grande segmento dos convertidos, que excedeu duzentas mil almas, manteve contatos secretos com seus irmãos judeus e continuou a praticar o judaísmo em segredo.

Os tombados e os heróis

Com a exceção dos pogroms de turbas, quando às vítimas era oferecida a alternativa de conversão ou morte, a política oficial do governo dava a alternativa de conversão ou expulsão. Por isso é estranho que tantas dezenas de milhares de judeus tenham aceito a conversão, uma vez que não eram diretamente ameaçados pela espada. Por contraste, no caso de comunidades judaicas em outros países, conversões eram encontradas só muito raramente e a grande massa dos judeus escolheu a morte para santificar do nome de D'us.

O que enfraqueceu o judaísmo espanhol, a ponto de tornar tantos de seus filhos incapazes de resistir à prova? Os sábios daquela geração revelaram a causa da fraqueza. Por um lado, estavam acostumados a uma vida de luxo sem comparação com a de outras comunidades da Diáspora, cuja força de vontade fora forjada pelas duras provas de privação e perseguição. O judaísmo espanhol estava também enfraquecido pela preocupação com a filosofia racionalista. O esposar do racionalismo atenuou a profundidade de sua crença e o tornou mais suscetível de sofrer perseguições por causa de sua fé.

Não obstante, a santidade judaica não cessou mesmo entre aqueles que tropeçaram. Com a passagem do tempo, muitos deles retornaram ao seio de sua fé; no princípio secretamente, e subseqüentemente com a santificação pública do nome de D'us, até a morte.

Os Marranos

Aproximadamente 100 anos antes da Expulsão, a comunidade judaica espanhola estava dividida em dois segmentos principais: aqueles que permaneceram leais ao judaísmo apesar de todas as perseguições, e uns duzentos e cinquenta mil cristãos-novos que abraçaram a fé dominante, pelo menos publicamente, e que pertenciam de modo geral à classe abastada. Mesmo estes viviam uma vida de isolamento e temor.

Isolaram-se de seus irmãos que permaneceram judeus. Tinham igualmente medo de manter contato uns com os outros, com receio de suspeição de conservarem ligações com seu passado. Tampouco foram absorvidos pela população, que continuava a odiá-los e a espioná-los dia e noite, a fim de entregá-los para julgamento pelo deslize de serem relapsos com a sua nova fé.

Esses judeus eram chamados de "marranos" pelos cristãos velhos. A palavra "marrano" significa "porco". Eram vistos como se estivessem engordando do trabalho dos outros e de quem não se podia beneficiar a não ser por sua morte, quando sua carne podia ser ingerida.

Os que permaneceram judeus publicamente eram ameaçados somente de expulsão, ao passo que os marranos encaravam a penalidade de serem queimados vivos pelo pecado de deslealdade. Os marranos eram constantemente espionados. Às vezes as acusações eram procedentes, mas em outras seus inimigos forjavam mentiras, a fim de se apossarem de seus bens.

A Inquisição

Dezoito anos antes da Expulsão, Torquemada, o mais brutal entre os sacerdotes católicos, instalou a Inquisição: um tribunal para impor penalidades sobre os desleais. Ostensivamente, as atividades da Inquisição diziam respeito a todos os cristãos, mas na realidade a "heresia" dos marranos era a principal preocupação da Inquisição.

Torquemada conquistou o coração da rainha Isabel que se desviou de todas as outras preocupações e ficou apaixonadamente absorvida em avançar o trabalho da Inquisição, erradicar a "heresia" e procurar a expulsão dos judeus que permaneceram leais em público a sua fé. Esperava, desta forma, obter o perdão de todos seus pecados.

Mais de trinta mil marranos foram condenados à morte e queimados vivos pela Inquisição. Outras dezenas de milhares foram submetidos à tortura física mais horrível que a morte. A maioria santificou o nome de D'us ao morrer, após ter antes falhado em resistir à pressão para a conversão pública. As repetidas confissões dos torturados, que haviam permanecido leais à Torá e ao judaísmo, enfureceram os inquisidores e seus agentes, e fizeram com que perseguissem os marranos ainda mais ferrenhamente.

Essas repetidas confissões também deram aos inquisidores maiores argumentos em seus esforços para convencer o rei Fernando a emitir um decreto de expulsão contra todos os judeus remanescentes. Pois, "enquanto os judeus continuassem a viver na Espanha, influenciariam seus irmãos a aderir à fé de seus pais".

O edito de expulsão

Na introdução a seu comentário ao Livro dos Reis, Don Yitschac Abarbanel, descendente da Casa Real de David e líder da comunidade judaica, descreve o edito de expulsão proclamado pelo rei Fernando no primeiro dia de Adar 5252 (fevereiro de 1492):

"Em 1492, o rei da Espanha capturou o reino de Granada junto com sua cidade-capital. Um sentimento de poder e arrogância fê-lo pensar: 'Como posso ser aceitável perante o Altíssimo que me armou com força para a guerra? Como posso agradecer a meu Criador que me entregou esta cidade, se não trazendo sob Suas asas os povo que caminha nas trevas, o rebanho disperso de Israel?'

Abarbanel continua: "Quando eu estava presente no palácio real, gritei até ficar rouco - falei com o rei três vezes - supliquei diante dele, dizendo: 'Salve ó rei! Por que farás isso aos teus servos? Multiplica penalidade de dinheiro contra nós a vontade, e cada um dos judeus dará tudo o que tem em prol de seu país.' Procurei meus amigos que vinham à presença do rei, para implorar por meu povo. Príncipes se reuniram e insistiram fervorosamente com o rei para revogar o escrito de ira, para desistir de seu plano de destruir os judeus. Mas ele selou os ouvidos como se fosse surdo e recusou terminantemente reconsiderar. A rainha estava a seu lado direito, para incitá-lo ainda mais... para agir com determinação definitiva. Lutamos, mas nenhuma prorrogação nos foi dada. Não descansei, não desisti, mas fui incapaz de desviar a condenação.

"O povo ouviu as más notícias e se entristeceu. Onde quer que chegasse a palavra do rei e sua ordem, houve grande luto entre os judeus. Havia terrível medo e angústia como nunca foram conhecidos desde o exílio de Yehudá para solo estrangeiro. Resolvemos: 'Sejamos fortes em nome de nossa fé, da Torá, de nosso D'us, na presença dos que blasfemam e dos que nos odeiam. Se nos deixarem viver, viveremos, e se nos assassinarem, morramos, mas não profanemos nosso pacto e não permitamos a nosso coração recuar. Iremos em nome de D'us.'

"Eles foram sem força - 300.000 a pé - os jovens e os idosos, pequeninos e mulheres, num dia - de todas as províncias do rei, para onde os levasse o vento."

Don Yitschac Abarbanel também escreve em seu comentário sobre Yirmiyáhu: "Quando o rei da Espanha decretou a expulsão dos judeus, a data foi marcada para o fim de três meses a partir do dia em que foi proclamado. Esse dia foi 9 de Av. Mas o rei não conhecia o caráter desse dia quando emitiu o decreto. Foi como se tivesse sido guiado de Cima para fixar esse prazo."

Após a proclamação do edito

Muitos judeus foram assassinados e roubados pelos vizinhos ainda antes de chegar a hora da partida, pois o sangue judeu era indefeso. Muitos fugiram da Espanha e se dispersaram pelas estradas indo para além das fronteiras da Espanha mesmo antes do prazo marcado. Mas toda sorte de calamidades os assolou na estrada, como se a mão de D'us Se tivesse erguido contra eles, a fim de destrui-los.

Música, canto e louvores

Os exilados saíram para a estrada no decorrer do período das Três Semanas, entre 17 de Tamuz e 9 de Av. Grupos de vários tamanhos precederam a grande partida no dia 9 de Av.

Embora esses dias sejam de luto e pranto pela destruição dos Santuários e da Terra de Israel, e a música proibida, os sábios daquela geração deram permissão para os exilados marcharem ao som de músicos, a fim de fortalecer o espírito do povo e infundir nele esperança e fé em D'us. Davam graças a D'us por terem resistido à prova, não se submetendo à conversão e por conseguirem atingir o mérito de santificar o nome de D'us com sua partida da Espanha.

Era também a intenção dos Rabis, ao permitir o toque de instrumentos, ensinar o povo que nunca derramamos lágrimas pela partida ao exílio; choramos somente pela partida de Jerusalém.

Traduzido de Sêfer Hatodaá © Rabino Eliyáhu Kitov, z"l.